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14.08.2017

Provocador, jornalista desmistifica uso de defensivos

A Rede AgroServices entrevista Nicholas Vital, autor de “Agradeça aos Agrotóxicos Por Estar Vivo”

Frank Duurvoort - Rede AgroServices

Foto: Claudio Gattai
Nicholas Vital, autor do polémico livro  “Agradeça aos Agrotóxicos Por Estar Vivo” (Foto: Claudio Gatti)
Um livro que está dando muito o que falar, no campo, na cidade e nas redes sociais. “Agradeça aos Agrotóxicos Por Estar Vivo,” do jornalista Nicholas Vital, procura desmistificar o acalorado e, às vezes, desinformado debate sobre a agricultura moderna e o uso de defensivos agrícolas. Com argumentos ponderados e bem fundamentados, mas sem dispensar o título provocador, Vital chama ambientalistas para a briga enquanto ganha aplausos da comunidade agro.
 

O autor vai à luta bem armado. Vital, indiscutivelmente, fez a lição de casa. Entre a pesquisa e coleta de dados à entrega do texto final à editora, foram-se dois anos. O ex-repórter das revistas Dinheiro Rural e Exame realizou mais de 50 entrevistas, consultou mais de 100 pesquisas científicas e leu muita reportagem na imprensa brasileira e estrangeira para redigir o seu livro, que tem mais de 30 páginas só de referências bibliográficas.

“Tudo é muito bem embasado,” diz ele. “Eu não sou engenheiro agrônomo nem médico toxicologista. Eu não tenho capacidade para fazer essas análises, mas eu ouvi todo mundo que tem. Eu ouvi as pessoas que trabalham nisso há décadas.”

Vital esclarece não ser contra produtos orgânicos. São produtos de nicho, que atendem a um segmento da população de maior renda que pode comprá-los, afirma. No entanto, dada a tecnologia que utilizam na sua produção, os orgânicos são caros demais para alimentarem um mundo de 7 bilhões de habitantes. Daí o título do livro: “Agradeça aos Agrotóxicos Por Estar Vivo.”

Capa do livro "Agradeça aos Agrotóxicos Por Estar Vivo”
(Foto: Divulgação)
RA: Por que você escolheu uma ideia tão polêmica como tema do seu livro? Por que um título tão provocativo?
 

NV: Na verdade, esse título é bem provocativo, mas o conteúdo é bem mais moderado. Hoje existe um debate bem desequilibrado entre alimentos orgânicos e convencionais. O que a gente vê hoje na mídia? É um clima de terror em torno dos agrotóxicos, que seriam alimentos envenenados e eu, como jornalista que cobria agronegócios, não era essa a realidade que eu via no campo. Visitei muitas fazendas, e notei que o produtor via o agroquímico como um aliado, como um insumo fundamental para a agricultura e não algo que estaria envenenando todo mundo. Então, vi que eu tinha uma boa história e resolvi investigar mais a fundo. E o que eu percebi é que existe um problema de percepção do público. O pessoal não conhece o produto e aí, por causa dessa onda de notícia negativa, acaba ficando com muito medo de um produto que é um produto químico, sim, mas, se bem utilizado, não tem problema algum. Ele tem mais benefício que malefício.

RA: Essa desinformação decorre do quê? Você acha que a indústria dos orgânicos não estaria aproveitando essa situação de desinformação?

NV: O que eu concluo é que existe um interesse comercial por trás disso. Tem uma coisa que a gente precisa levar em consideração, que é fundamental nessa história. Hoje os orgânicos representam só 1% do mercado. Então, não dá pra você querer impor para os outros 99% dos consumidores esse tipo de comida, que é muito mais cara e que, além de tudo, não é cientificamente melhor. Ela não tem mais nutriente, nem é mais gostosa e isso é comprovado por pesquisas tanto da Universidade Stanford quanto aqui do Brasil do ITAL [Instituto de Tecnologia de Alimentos, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo]. Só que isso não vai pra mídia, as pessoas não sabem disso. Eu não estou aqui fazendo o papel da indústria, até porque faço algumas críticas à indústria no livro. Mas essa história está muito mal contada e foi por isso que resolvi escrever o livro.

RA: Qual é o papel da imprensa, da indústria e do agronegócio de modo geral nessa desinformação?

NV: Eu sou jornalista e a gente sabe que notícia ruim é o que vende. Não sei se a imprensa tem a capacidade de compreender os estudos, mas também não tem interesse porque, no fim, notícia ruim é o que vale e se alguém contestar, ela dá a notícia de novo. A indústria é muito passiva. O pessoal fala um monte de besteira e a indústria não rebate. A indústria tem argumento pra isso e não rebate, nunca rebateu. Essa é a primeira vez que alguém tá querendo questionar essa indústria dos orgânicos. Orgânico é uma indústria também. Não são coitadinhos. O pessoal não quer salvar o mundo. O pessoal quer ganhar dinheiro. As pessoas não abrem o olho pra isso. Têm uma visão muito romântica e estão meio por fora da vida real. Então, o grande problema é esse: a imprensa não tem interesse em ir a fundo na notícia e a indústria nunca contestou a história também.

RA: Mas se essa vilanização dos defensivos agrícolas é a uma jogada de marketing da indústria dos orgânicos como você coloca, como fica a questão do uso incorreto dos defensivos? É o uso de um defensivo para tomate sendo usado no pimentão, ou o produtor que desrespeita a dosagem ou o prazo de carência e põe a produção à venda antes do prazo. Não decorre daí, dessas práticas incorretas, boa parte dessa aversão ao produto agrícola convencional?

NV: Com certeza. O livro é bem equilibrado e tem um capítulo inteiro chamado “Agrotóxico Mata.” Eu abordo, sim, esses problemas. O agrotóxico não tem problema algum. O que tem problema é o uso incorreto deles. É a mesma coisa se você pegar um carro. O carro também é uma ferramenta ótima. Só que ele causa 40 mil mortes por ano. A gente tem que brigar pelo quê? Pra banir o carro? Não. Pra usar o carro direito. E com o agrotóxico é a mesma coisa. É preciso, sim, que se utilize de forma correta. Só que a gente sabe que aqui no Brasil a gente tem um problema de educação, que é um problema de base. Hoje muitos produtores não sabem sequer ler. Então, não dá pra exigir que esse cara leia a bula, entenda a bula, faça a calda com a proporção certa, aplique com o bico correto. Hoje, menos de 15% dos agricultores usa o EPI [Equipamento de Proteção Pessoal]. Existem vários problemas e tudo isso, na verdade, é um problema de falta de fiscalização. Hoje você vê loja agropecuária que vende produto sem receita, loja agropecuária que tem agrônomo próprio, que vai fazer a avaliação e tem muito mais interesse comercial que agronômico. O governo hoje não tem um programa de extensão rural. Quem faz extensão rural? As empresas fazem extensão rural. Como é que a gente pode resolver isso? Tendo de volta a Embrater [Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural], que foi extinta no governo Collor. É uma extensão rural oficial. Você precisa ter uma fiscalização em campo pra ver se os agricultores estão aplicando com equipamento de proteção. Você pega um produtor, que já é pouco educado... ele sabe que ele tem acesso fácil ao produto. Ele sabe que ninguém vai fiscalizar a propriedade dele, que ninguém vai lá perturbar se ele estiver aplicando sem equipamento de proteção. Ele sabe que se ele botar um produto com resíduo, sem respeitar a carência, muito dificilmente alguém vai identificar porque não vai testar. Então, essa frouxidão toda leva ao mau uso. Se a gente tivesse uma fiscalização eficaz em todos esses pontos, com certeza o produto seria muito melhor utilizado. O problema é de fiscalização e isso impacta na imagem. O que a gente vê nesses programas de TV são os piores exemplos porque é a notícia ruim a que vende. Então, a população cada vez mais urbana, que não sabe como funcionam as coisas no campo, fica com essa imagem deturpada.

RA: Então, só pra esclarecer: você defende a volta da Embrater?

NV: Não necessariamente da Embrater. Eu defendo a extensão rural oficial. Quem pode orientar o produtor rural sem interesse é o governo. Porque se você deixa na mão da loja agropecuária, o cara quer te vender produto. Se você deixa na mão da empresa, a empresa quer te vender produto porque se ela não vender, o concorrente dela vai vender igual. Então, tem que ter fiscalização oficial em todos os pontos, tanto na extensão rural, quanto na fiscalização do trabalhador em campo quanto na área de produtos na ponta. Eu defendo isso. Eu defendo um controle maior.

RA: Você afirma que mesmo a produção de alimentos orgânicos faz uso de defensivos químicos. Como assim? Os orgânicos não são inofensivos por definição?

NV: Não, não são inofensivos. No Brasil, a gente tem uma incidência de praga muito grande. Então, os orgânicos também são tratados com produtos químicos. A diferença é que esses químicos não são industrializados. São produtos químicos encontrados na natureza, que eles fazem tipos de misturas. Um exemplo clássico é o enxofre. O enxofre é um produto altamente tóxico e ele é utilizado na agricultura orgânica. Como é que funciona? O cara mistura 800 gramas de enxofre em pó com farinha de trigo e faz uma calda com água e aplica. Mas é enxofre, uma coisa química, pesada, que pode contaminar. Um outro exemplo: sulfato de cobre, que é a base da calda bordalesa [um fungicida]. É o mesmo produto feito pra limpar piscina. É um negócio que é tóxico também. Se você ingerir isso, você vai ter problemas. E as pessoas não sabem disso. As pessoas acham que os orgânicos são completamente livres de qualquer substância. E as pessoas não sabem que os orgânicos oferecem mais riscos que os convencionais. A gente teve uma prova clara disso com o problema da e. coli na Alemanha. Foram pelo menos 35 mortes e 3 mil pessoas intoxicadas por um lote de broto de feijão contaminado. Enfim, o que faz mais mal? Eu nunca vi ninguém ser hospitalizado porque comeu resíduo de defensivo. O pessoal ainda fala que é um efeito a longo prazo, mas minha avó comeu esses agrotóxicos, alguns até muito mais pesados, dos anos 50, 60, 70, que eram muito mais tóxicos, e taí, com 94 anos. Essa história que tem aumento de incidência de câncer é outra lorota também. Tudo mentira. Pega os números do American Cancer Society. Tá lá: tá tudo estabilizado, os números do câncer, desde os anos 70. As pessoas criam histórias fantasiosas e ninguém vai checar. E essas histórias, por serem ruins, ganham as manchetes dos jornais e o povo acredita. E como não tem contestação por parte da indústria, a história se perpetua. É isso o que acontece.

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